RESUMO
Este artigo descreve o processo de gestão do risco
atuarial e financeiro de um fundo de pensão, com ênfase
na influência do risco proveniente da taxa de juros,
e apresenta como estratégia alternativa o processo
de imunização dos investimentos, utilizando-se
dos postulados de Frederick R. Macaulay, como forma de minimizar
o impacto decorrente da variabilidade acentuada da taxa de
juros.
Setembro/2000
I - Introdução
A administração eficiente dos recursos aplicados
no fundo de pensão representa um fator primordial para
o cumprimento das metas pré-estabelecidas de um plano
de benefícios. A partir de maio de 2001, o segmento
dos fundos de pensão passará por um processo
de grande transformação, como conseqüência
da determinação do Conselho Monetário
Nacional – CMN de que os investimentos de renda fixa
sejam precificados tando como base o mercado (Mark to Market).
Com isso, o segmento passa a ter os valores de suas carteiras
de renda fixa flutuando de acordo com o mercado.
A partir dessa determinação,
a administração do risco proveniente de possíveis
modificações das taxas de juros passa a ser
um fator fundamental na gestão dos fundos de pensão.
Em uma economia cada vez
mais globalizada, as constantes mudanças nas taxas
de juros, em decorrência das crises mundiais (Ásia,
Rússia, Brasil e outras), e na política monetária
nos últimos anos trouxeram com mais entusiasmo a discussão
sobre: a) os efeitos dos instrumentos financeiros sobre os
resultados das entidades; b) a forma mais adequada de divulgação
do valor de mercado das carteiras de investimentos; e c) a
exigência de evidenciação da política
de gestão de risco adotada pela administração.
Nesse sentido, este trabalho
propõe a utilização de uma técnica
denominada "imunização do fluxo financeiro
previdencial" do fundo de pensão como uma das
estratégias de investimentos que permite o perfeito
casamento dos fluxos financeiros, do ativo com o do passivo,
de forma a neutralizar os efeitos negativos da flutuação
da taxa de juros de mercado.
II - O risco atuarial
nos fundos de pensÃo
Nos fundos de pensão,
o dimensionamento de seus compromissos presentes e futuros
com todos os seus associados é definido através
de processos denominados avaliações atuariais.
Neste processo busca-se verificar o nível ideal de
recursos para que a entidade possa honrar seus compromissos,
de modo a proporcionar segurança aos administradores
quanto à viabilidade econômico-financeira da
entidade, inibindo a criação ou ampliação
de benefícios sem a respectiva fonte de custeio e assegurando,
desta forma, aos seus associados a realização
de suas expectativas relacionadas à obtenção
de um benefício previdencial privado.
A avaliação
atuarial é desenvolvida no mínimo uma vez no
ano e envolve projeções futuras acerca de determinados
parâmetros que geralmente podem ser classificados de
hipóteses atuariais e financeiras. Estas hipóteses
são utilizadas pelo atuário como ponto de partida
para o desenvolvimento dos cálculos que darão
origem aos custos e às reservas de um plano de previdência
privada. Em função dessas hipóteses e
dos estudos atuariais é extraída a taxa de custeio
do plano de benefício, que normalmente é custeada
pelos participantes e patrocinadores.
As hipóteses atuariais
envolvem a probabilidade de desligamento espontâneo
através da aposentadoria ou do desligamento do quadro
de empregados; das tábuas de mortalidade; da entrada
em invalidez; da rotatividade dos empregados; dos herdeiros
; e da idade de entrada em aposentadoria.
As hipóteses financeiras
são premissas utilizadas nas projeções,
de forma a criar um cenário hipotético, visando
estabelecer o real comportamento dos salários, da inflação,
dos juros, do crescimento dos benefícios e do carregamento
administrativo.
A taxa real de juros tem
grande impacto na determinação do custeio de
um plano de benefícios, visto que é utilizada
para encontrar o valor presente dos pagamentos e dos recebimentos
no futuro, daqui a 20, 30, 40 ou mais anos; ela representa
a expectativa de retorno das aplicações dos
investimentos ao longo do tempo. Quanto maior a taxa de juro,
menor será o passivo atuarial e a taxa de custeio do
plano, uma vez que a previsão é de que grande
parte dos recursos venha do retorno das aplicações
e não das contribuições futuras —
Por isso, no Brasil, a Lei nº 6.435/77 só admite
taxa real de juro de até 6% a.a., que é considerada
elevada numa economia estável, a longo prazo.
VANZILLOTA, DUQUE, SILVA
(1999), dentre as hipóteses atuariais comentadas, a
taxa real de juro é, sem dúvida alguma, a que
apresenta maior facilidade de verificação de
aderência, no curto prazo, entre o realizado e o projetado,
uma vez que esta não se confirmando, será necessário
aumentar a taxa de custeio do plano de benefícios,
de forma a compensar os recursos que não ingressaram
através do resultado dos investimentos.
Nesse contexto, observa-se
que a variabilidade da taxa de custeio e dos fluxos financeiros
do plano de benefícios é função
do grau de precisão das hipóteses atuariais.
Portanto, é fundamental que adotemos metodologias que
reduzam as incertezas associadas à taxa de custeio
do plano.
III - Risco da taxa de juroS
O risco de taxas de juros
é a exposição da condição
financeira de um fundo de pensão a movimentos adversos
das taxas de juros. Mudanças nas taxas de juros afetam
o valor implícito dos ativos, passivos e instrumentos
derivativos, já que o valor presente destes muda quando
as taxas de juros mudam; assim como os montantes a serem reinvestidos,
porém, neste momento, com uma taxa diferente da anterior,
causando um descasamento dos fluxos.
a) A estrutura a termo
da curva da taxa de juros (YIeld curve)
A estrutura a termo da
taxa de juros representa a relação, em determinado
instante, entre o prazo para o vencimento e a taxa de retorno
dos títulos de renda fixa oriundos de uma mesma classe
de risco.
A estrutura a termo da
taxa de juros tem como objetivo antecipar o comportamento
futuro da taxa de juros através das taxas praticadas
no presente. Entretanto, o desenho da curva a termo é
influenciado por três teorias econômicas, quais
sejam:
Expectativa do mercado — essa teoria aceita a influência
das taxas de juros vigentes no presente na formação
das expectativas de futuro, como por exemplo: caso o investidor
espere uma elevação das taxas de juros em curto
prazo, ele investe em curto prazo e reinveste sucessivamente;
se o investidor espera taxas constantes no futuro, qualquer
prazo lhe satisfaz; e, finalmente, se ele espera taxas declinantes
no futuro, ele investe em longo prazo sacando os recursos
na medida das suas necessidades.
Prêmio de Liquidez — decorre das incertezas dos
aplicadores em relação à evolução
das taxas de juros no futuro. Portanto, quanto maior o prazo,
maior o risco de perda por uma eventual elevação
da taxa de juros no futuro. Nesse sentido, para prazo maior
o investidor exige mais taxa(prêmio de liquidez), e
para curto prazo ele exige menor taxa.
Segmentação do Mercado — fundamenta-se
na constatação que existem várias taxas
de juros na economia, uma vez que tais taxas refletem a demanda
e a oferta de recursos em compartimentos estanques, ou seja,
investidores com exigibilidades de curto prazo investem em
títulos de curto prazo(bancos) e investidores com exigibilidades
de longo prazo investem em títulos de longo prazo(fundos
de pensão); portanto, cada um desses segmentos tem
taxas de juros distintas.
No mercado financeiro
brasileiro, a estrutura a termo da taxa de juros vem sendo
calculada com base na interpolação das curvas
de taxas de juros dos contratos de DI da BM&F e a parte
longa com base nas médias de swap divulgadas também
pela BM&F, as quais refletem a expectativa presente do
comportamento da taxa de juros no futuro.
b) MUDANÇAS NA CURVA A TERMO DA TAXA DE JURO (YIELD
CURVE)
As mudanças de
cenário econômico podem afetar as curvas de taxas
de juros. O entendimento de como estas mudanças ocorrem
é fundamental para que as instituições
possam equacionar suas políticas de exposição
e hedge.
Uma yield curve pode sofrer
movimentos de translação, isto é, todas
as taxas têm uma variação de mesma magnitude.
Se a soma das sensibilidades das operações de
um portifólio for igual a zero, este portifólio
estará imune a deslocamentos paralelos da yield curve.
Mas, nem sempre, as taxas de juros
se movimentam segundo este padrão. Dependendo do cenário
macro-econômico, podemos verificar uma mudança
na forma da yield curve
Mudanças da curva desta natureza comprometem substancialmente
a efetividade da imunização de passivos. Segundo
PINHEIRO, nas bases históricas de dados do mercado
brasileiro, pode-se identificar situações de
fortes mudanças das taxas de juros onde a yield curve
teve seu desenho fortemente alterado.
A alternativa para reduzir
o risco proveniente de mudanças como as descritas consiste
em não contratar hedge para um único vencimento,
mas contratar de forma distribuída, de acordo com os
descasamentos existentes ao longo do fluxo de caixa.
IV - MARCAÇÃO A MERCADO (MARK to MARKET)
Como vimos, o risco de
taxa de juro é mais facilmente identificado quando
as operações são atualizadas segundo
o seu valor de mercado por força de contrato.
Em nossa cultura financeira,
a grande parte das operações é precificada
segundo suas taxas contratuais. Haveria alguma utilidade a
valoração a mercado destas posições?
Em um mercado eficiente,
as taxas praticadas para um determinado prazo são uma
antecipação do custo de carregamento para igual
prazo. Assim, marcar a mercado tem a mesma conotação
de projetar o custo de carregamento futuro de acordo com as
perspectivas de mercado. Isto posto, conclui-se que é
bastante própria a utilização do conceito
mark to market para quantificar todas as posições,
não importando qual o critério contábil
usado para a apropriação.
O Banco Central do Brasil
vem impondo gradualmente em todos os mercados sob sua jurisdição
a exigência de marcar a mercado. O mais recente foi
o segmento de fundos de pensão, com a Resolução
do BACEN nº 2720/00, sendo que os bancos, fundos de investimentos
e seguradoras já o fazem.
Acreditamos, entretanto,
que no caso dos investidores institucionais deveria caber
alguma flexibilização, diferenciando-os, quanto
à valorização, pela intenção
de gestão dos títulos em relação
a negociação ou retenção dos títulos,
podendo se estender naturalmente as regras praticadas pela
legislação americana, através do Pronunciamento
nº 115 do Financial Accounting Standard Board - FASB,
o qual classifica os títulos, para efeito de precificação,
como segue:
a) Títulos Negociáveis
(Trading)
São títulos
adquiridos para venda a curto prazo, sendo avaliados ao valor
de mercado(fair-value), e a valorização (lucro)
ou desvalorização (prejuízo) não
realizada é contabilizada no resultado do exercício;
b) Mantidos em carteira até o vencimento (held-to-maturity)
São títulos
de renda fixa, com intenção e condição
de serem mantidos em carteira até o vencimento, sendo
avaliados pelo custo amortizado(amortized cost), acrescido
dos rendimentos previstos contratualmente, mediante apropriação
por competência.
c) Disponìvel para venda (Available-for -sale)
São títulos
não classificáveis nos itens anteriores, sendo
avaliados ao valor de mercado(fair value), e a valorização(lucro)
ou desvalorização(prejuízo) não
realizada é excluída do resultado do exercício
e reportada como componente separado no patrimônio líquido.
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